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É tempo de ganhar tempo: 5 razões porque precisamos de tempo para criar

É tempo de ganhar tempo: 5 razões porque precisamos de tempo para criar

Terça-feira, 12 de Julho, 2011
S

im, tempo é dinheiro. Logo, na falta do segundo, escasseia o primeiro. Depois da dé­cada que aumentou a velocidade a que as coi­sas são feitas e com que temos que as fazer, vem a década em que esse bem se torna um protocolo obsoleto, e com ela o caos resultante da assimilação, o multitempo e seus produtos, o multitasking, o multitalking, o multisociali­zing, o multibeing.

Até agora foi divertido, até porque ao mes­mo tempo aumentaram as coisas criadas para nos fazer perder tempo e nos distrair enquan­to criamos. Do Facebook à necessidade de nos termos que levantar do local de trabalho para ir fumar, existem um sem-número de novas maneiras de não fazermos no tempo a que es­tava destinado aquilo que tínhamos para fazer, o que de si já é mais do que o que estávamos habituados a fazer.

Esta é uma revolução silenciosa. A do tem­po. Hoje, estão povos na rua por razões econó­micas. Não tardará o dia em que os que não têm tempo para fazer se juntem aos que não têm que fazer.

Na incapacidade de alargar o tempo, a raça humana tem aumentado a velocidade a que faz as coisas no disponível. Tem alargado o tempo previsto de determinadas coisas, sem alterar de verdade o tempo que duram. Conseguirá um dia alterar a própria natureza do tempo, como sempre o sonhou, permitindo-nos via­jar nele. Até lá, a verdade é que cada vez há menos tempo. E aparentemente mais coisas para fazer. Embora as que existem a mais se­jam muitas vezes não produto da abundância, mas da crise. O que é estranho. A crise é um lugar estranho. Por mim tudo bem, eu sempre fui estranho. Mas a verdade é que cada vez te­nho menos tempo. E do que tenho, por muito que o estique, uma cada vez menor parte é de qualidade. Tempo de qualidade profissional fa­lamos aqui. Embora o outro, que para aqui não é chamado, sofra na exacta medida.

Criar é um acaso do tempo. Não depende de muito ou pouco tempo. Não é possível não criar numa situação em que essa é a resposta. Nessa perspectiva a criação é um acaso. Poderá ser um acaso que demora muito ou pouco tempo.

Não se trata da possibilidade da criação estar dependente do tempo disponível. A sua existência está garantida, numa indústria que determina que é o acto criativo que produz a matéria-prima que depois é usada pelo sistema. Milhões são colocados por detrás de duas ou três palavras ou de uma imagem. No caso desta não surgir, tudo pára. A questão prende-se com o resultado da criação. A natureza intrínseca do que é criado. E é esta que tem vindo a ser exces­sivamente afectada pela falta de tempo.

Num estudo de 2002 feito por Teresa Ama­bile e professores de Harvard, que durou 10 anos e envolveu 238 pessoas, conclui-se que a pressão dos deadlines diminui a criatividade também nos dias subsequentes, naquilo que é explicado como uma time-pressure hangover. Como explicar a ilusão que os deadlines esti­mulam? Não se pode negar o efeito de desper­tar que uma data tem numa mente criativa. Mas num sistema em que só o deadline é lei, o que o criativo desenvolve são receitas para responder a determinada tipificação de pro­blemas, em vez de recriar o problema. Ou seja, estabelece uma abordagem funcional, em vez de encarar o problema como desafio intelec­tual. Com o tempo emerge o “estado tarefa” e não o “estado exploratório”, essencial para a criatividade. A pressão do tempo produz resul­tados conservadores, seguros, de curto prazo. O que em tempo de crise pode parecer bom. Mas é mau.

Proponho cinco outras palavras que podem substituir a palavra dinheiro e ainda contribuir para melhores resultados.

Tempo é conhecimento. Permite cumprir o processo criativo. Permite não queimar etapas, obrigar a um raciocínio que comece na habitual deambulação prospectora, passe pelos estados de tese e antitese para se estabelecer como uma entidade que comunica com eficácia.

Tempo é oportunidade. É oportunidade para ter 100 ideias em vez de uma. Para isso, é preciso dar-se o processo de afastamento da ideia anterior. Isso exige tempo. Para o cérebro voltar a perspectivar e poder terminar a nossa ligação emocional com a ideia que acabamos de ter e que naquele momento parecia a me­lhor do mundo.

Tempo é investimento. Na falta de tempo, joga-se pelo seguro. E tende-se a recorrer a quem apresenta melhores índices de fiabili­dade. E descura-se o sangue novo, usado para tarefas de execução e não de exploração. Tem­po é preciso para explorar, fazer incidir novas luzes sobre os assuntos, perceber novas formas de pensar. Tempo é preciso para não matar o novo talento.

Tempo é motivação. Podemos fingir que desmaterializamos o acto criativo. Que hoje, com todas as ferramentas, o tornámos num acto quase higiénico. A verdade é que ele não existe sem motivação e se não existe essa von­tade intrínseca de criar, apenas se faz.

Tempo é sucesso. A pior coisa que existe para o funcionamento bem oleado de um de­partamento criativo são campanhas recusadas. E refinamentos. Na minha experiência pes-soal mais de 75% destes são defeitos no proces­so de gestão de tempo e da informação. Conse­guir gerir ganhando tempo para que o processo criativo seja completo, é meio caminho para aumentar o índice de aprovações à primeira. Sei que estamos no tempo da decisão tomada. Mas a verdade é que virá a altura em que va­mos perceber se isso se traduziu num ganho ou perda de tempo. E logo, de dinheiro. Espero, no caso de terem tido tempo de chegar até aqui, que possam considerar o que leram da próxima vez que tiverem que assumir esse lugar de dono do tempo. De alguém, seja ele quem for.

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"Hoje, estão povos na rua por razões econó­micas. Não tardará o dia em que os que não têm tempo para fazer se juntem aos que não têm que fazer" Pedro Pires, director criativo da Ivity
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