TIP Talk: A responsabilização dos portugueses ou a falta dela

Debater a cultura da responsabilização e perceber onde pára o conceito de “commitment” no dia-a-dia dos portugueses e, em particular, dos gestores foi o objectivo da Tip Talk de ontem. O Jardim de Inverno do Edifício da Fidelidade, no Chiado, recebeu António Ramalho, presidente da Infraestruturas de Portugal, e a jornalista Manuela Moura Guedes num evento organizado pela Marketeer.

António Ramalho tomou o leme da conversa e começou por garantir que o commitment dos gestores, ou pelo menos no seu caso, é com a transparência, seja ela perante a restante empresa onde trabalha, seja perante o público em geral. Este compromisso pauta-se pela divulgação de informações, pela apresentação de ideias e por responder às questões colocadas, sendo que é aqui que entra o papel do jornalista.

De acordo com o presidente da Infraestruturas de Portugal, o jornalista deve funcionar como intermediário com a população, restando apenas saber qual o commitment dos jornalistas. A bola estava lançada para Manuel Moura Guedes que responde com a garantia de que o compromisso da comunicação social deve ser com a verdade e com a realidade, ainda que seja inevitável imprimir um pouco do próprio jornalista em cada trabalho.

O compromisso é também com a audiência? A questão de António Ramalho leva a uma resposta afirmativa de Manuela Moura Guedes que exemplificou esse cenário com as entrevistas em que é necessária a intervenção do jornalista para que o foco não seja esquecido e o entrevistado não se deixe levar para temas que não são do interesse do público.

Mas voltemos aos gestores em Portugal. António Ramalho afirma que são mal vistos pela população em geral e que a culpa está numa cultura que avalia os resultados e não os processos, promovendo a desresponsabilização. Manuela Moura Guedes aponta que esta desresponsabilização é patente especialmente na gestão pública, em Portugal, e que o trabalho do jornalista é reportar esse facto, independentemente de estar relacionado com os resultados ou com os processos.

Aberta a porta para a gestão pública versus privada, António Ramalho lembra que, hoje, a gestão de empresas privadas tem um nível de commitment maior do que nunca. Agora, o compromisso já não é apenas com os accionistas mas também com a responsabilidade social e com os colaboradores.

Em jeito de conclusão, Manuela Moura Guedes afirma que «os portugueses são desresponsabilizados desde crianças» e que é essa a raiz da também desresponsabilização na gestão, seja ela pública ou privada. A jornalista termina com o exemplo das manifestações, declarando que o povo português vai para a rua somente quando o seu próprio bolso é atacado, não se manifestando por valores ou convicções.

«O povo está sempre à procura da ajuda do Estado», algo que Manuela Moura Guedes justifica com uma cultura de desresponsabilização e falta de commitment que ficou marcada na mentalidade dos portugueses desde o antigo regime.

Texto de Filipa Almeida

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