Vota ±MAISMENOS±

Desde 2005 que maismenos nos vem envolvendo na sua bem tecida teia de ironia artística de contestação política e social. E faz isso através da utilização despudorada dos mesmos mecanismos de «propaganda que estão em parte na base da sua crítica, expressa através de peças que questionam o modelo capitalista de organização económico-social, o impacto da desumanização, a perda de memória, a desvalorização da História, a palpável incapacidade de reacção social mas, acima de tudo, a própria natureza ideológica da discussão política actual e colocando em causa o entendimento ou a importância desse facto por parte de quem vota.

±MAISMENOS± sempre se constituiu como plataforma de convergência e coexistência, o símbolo universal de uma sociedade fracturada, dividida, polarizada, paradoxal.

É uma arte que usa as armas que tem por alvo. Sem isso, não conseguiria afirmar a sua própria existência e pertinência, pois é com elas que estabelece uma permanente corrente de crítica e contracrítica. Isto com o pano de fundo que resulta da alienação que esses próprios meios propagandísticos e publicitários provocam na nossa capacidade de analisar e reflectir sobre a realidade.

Complicado? Então, e se o próximo passo for a criação de um partido político?

Vota ±MAISMENOS± é a formalização oficial da intenção de criação de um novo partido político. Será um partido. Será mais. Será menos. Será o que as pessoas quiserem. Se quiserem que seja um partido. Para já, é isto que se percebe do que ±MAISMENOS± diz.

Confusos?

O primeiro acto foi no Festival Iminente. Com a primeira intervenção de campanha com várias acções de propaganda tradicional e interacção com o público. A intervenção incluía uma sondagem diária nos três dias de festival com simulação de voto secreto colocado em urna. Do boletim constavam todos os partidos concorrentes às últimas eleições e o ±MAISMENOS±. Os resultados estão publicados no Facebook de ±MAISMENOS±.

O segundo acto foi no comício inaugural no Passos Manuel, no Porto. ±MAISMENOS± desafiou quem quisesse a enviar um minuto de propostas políticas e garantiu que elas seriam escutadas durante o comício. O que aconteceu pode ser ouvido aqui. Perante uma entusiasmada plateia de pessoas mais ou menos inteiradas do que estavam a fazer, mas com a aparente vontade que estavam a fazer alguma coisa importante, ±MAISMENOS± apresentou aquilo que achou por bem apresentar como seu discurso e comício de apresentação.

O que é que isto nos diz? Bom, para já nada. Diz-nos o que quisermos. Não sendo surpreendente da parte de quem vem, surpreende a aparente determinação de fazer acontecer. Se as pessoas quiserem, votar ±MAISMENOS± é o futuro. Por muito anedótico que possa parecer, temos tido exemplos que provam que projectos políticos nascidos de intenções aparentemente contraditórias ao próprio processo em que estão envolvidas podem ser um sucesso. O Partido Pirata, que elegeu um deputado para o Parlamento Europeu, Cicciolina foi deputada (considero pessoalmente serem exemplos mais respeitosos que outros que existiram) e são provas de que esta é uma realidade que pode ser plausível.

Para quem gosta de propaganda política e de publicidade em geral, este é um fenómeno a observar, independentemente da cor política que cada um tenha. Poderemos estar perante um desbragado festim semiótico, mesmo que na aparência pareça desprovido de um conteúdo com o qual se possa concordar ou deixar de concordar. Será esse porventura o elogio da semântica, a sua aparente ausência?

Será com certeza um estimulante desafio intelectual perceber como irá ±MAISMENOS± percorrer esta corda bamba da afirmação e “desafirmação” política, da ideologia não ideológica, da vontade solicitada, do cenário de projecção de vontades, como parece afirmar- se este partido, dada a ausência de um programa evidente. E do conflito entre arte e política? É um partido? É uma performance? Veremos ±MAISMENOS± na assembleia como resultado das próximas eleições gerais?

É tudo? É nada? Será que irá, através da manipulação objectiva, ultrapassar o impacto e superar proezas mediáticas e propagandísticas de outros partidos? Irá utilizar melhor os meios de comunicação à disposição?

Será que isso lhe interessa? E a nós?

Vamos para já considerar que é um metapartido que utiliza conscientemente os meios de propaganda, exercitando-se com as reacções que essa manipulação e os contextos onde ela decorre possam provocar. É um partido sem programa e sem certezas. Pelo menos, para já. Pelo mais, talvez seja isso melhor.

Quanto a mim, quanto mais percebo Pavlov mais gosto dos meus gatos. (Não que deixe de gostar de cães). E voto ±MAISMENOS± .

Texto: Pedro Pires
CEO/CCO Solid Dogma Presidente do CCP

Artigo publicado na edição n.º 244, de Novembro de 2016, da revista Marketeer.

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