Até quando?

Maria João Vieira Pinto

Directora de Redacção Marketeer

Há gelados artesanais e cervejas artesanais. O próprio do artesanato reinventado, entre sardinhas e azulejos. Os petiscos redescobertos e recombinados. As latas de conserva que perderam teias de aranha de anos a fio. As padarias do meu bairro e do bairro do vizinho. A manteigaria. A leitaria. A frutaria e a nova mercearia.

Naquilo que achamos terem sido passos dados em apenas alguns meses, aparentamos redescobrir tradições. Fomos a baús, atirámos complexos de inferioridade para o interior dos armários e fizemo-nos à rua. Aparentemente, voltámos – como que num estalar de dedos – a querer comunicar e partilhar com orgulho aquilo que é só nosso. Um movimento de portugalidade, mas toldado por uma dose gigante de cosmética.

Porque o problema, meus senhores, é que mesmo estando hoje nós no século XXI – com redes, facebooks e blogs, instagrams e youtubes, campanhas digitais e artigos sobre o País escritos em russo ou mandarim – não podemos dar de barato e querer vender carapau por sardinha.

Os pastéis de bacalhau comem-se assim. Como eles são, acabadinhos de fazer, e com broa! O queijo da serra é demasiado nobre para se diluir na batata. A filigrana é arte milenar. Os bordados de Castelo Branco, de uma minuciosidade artesanal. E o próprio galo de Barcelos tem um tratado para contar (ou cantar). As sardinhas em lata não andam em carrosséis. Assim como a ginjinha não se bebe em copos de gin.

A identidade de um povo faz-se na passagem de lendas e tradições. Na confirmação de histórias. Na preservação de traços e cores. Na perpetuação de sabores, texturas e aromas. Querer pintar e decorar toda uma frota de tascas como se fossem cantinhos gourmet pode até dar resultado. Mas, até quando? Já sabemos que se pode enganar toda a gente por algum tempo. Até se pode enganar alguns, todo o tempo.

Mas nunca conseguiremos enganar todos, durante todo o tempo! Deitemos, mesmo, os complexos para trás das costas. E acreditemos que vale a pena!

Editorial publicado na edição de Julho de 2017 da revista Marketeer

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