Da parte fraca

Texto: Tiago Viegas

Partner da The Hotel

Talvez por ser Verão (e eu estar, portanto, mais silly que o costume), talvez por estar cansado, talvez por serem 5 da manhã e eu dever estar a dormir e de férias (coisa que, como se depreende facilmente, não estou), hoje queria falar vos de um tema que não só me é muito caro, como tende a custar na mesmíssima proporção (caro, entenda-se).

E ainda que – como notarão os mais críticos – não seja um exclusivo desta indústria, é particularmente relevante num métier onde abundam os rótulos de parceiros e parcerias que depois, na prática, mais não são que simples relações entre clientes pouco esclarecidos e fornecedores pouco profissionais. Mas dizia eu.

Nos negócios como na vida, sempre achei que dar parte fraca era, na verdade e paradoxalmente ao que a expressão parece querer dizer, um sinal de força: ter a coragem de assumir que algo não está a correr bem é não só honesto (que é sempre melhor que o seu oposto, seja por mentira descarada ou simplesmente omissão) como, ainda por cima, mostra a consciência correcta do que deve ser o benchmark. Ou seja, numa situação necessariamente má são, pelo menos, duas coisas boas. Mas não. Uma boa parte de pares, clientes, parceiros e afins tende a olhar para a parte fraca como uma jugular exposta que, apelando aos seus instintos mais primitivos, deve ser trincada e arrancada até à total ausência de vida do outro lado.

Coisa que, vos confesso, me irrita muito. Não só porque eu gosto muito de estar vivo. Mas, mais do que isso, porque me aborrecem os instintos primitivos. E o que me leva – como é hábito – a uma história.

Aqui há uns anos perdi um pitch onde, durante a reunião, resolvi (contra tudo e todos) assumir que, ainda que o conceito fosse muito bom e a premissa de base a todas as campanhas fosse perto de incrível (a modéstia é forte em mim, como poderão perceber), as peças e campanhas estavam muito mal resolvidas. Porque o conceito era difícil de aplicar, porque tivemos pouco tempo, porque às vezes corre mal, por tudo isso e ainda mais qualquer coisa. Mas a verdade é que estavam mal resolvidas, quanto a isso não havia nada a fazer.

Obviamente perdemos o pitch (coisas mal resolvidas tendem a perder pitchs), mas a verdade é que jamais o teríamos ganho, dissesse eu o que dissesse. Escusado será dizer que a agência inteira (ou quase) me caiu em cima, explicando-me que nunca se dá parte fraca e fazendo da minha fraqueza (ou força, como preferirem) o perfeito bode expiatório para o insucesso.

A parte curiosa é que a história não acaba aqui, mas antes dois anos depois, quando me cruzei com o cliente numa outra ocasião, altura em que o próprio me agradeceu a frontalidade e honestidade com que estive na reunião, não só porque tinha tornado tudo mais simples dali para a frente como, melhor um pouco, o tinha deixado com a impressão que eu era um tipo honesto.

Ou seja, numa situação em que íamos, desse por onde desse, perder o pitch, consegui: a) tornar o processo mais simples e b) causar boa impressão num futuro cliente.

Expliquem-me, como se eu fosse muito estúpido, como é que isso é mau? Alguém? Não? Era o que eu achava.

De lá para cá cresci (metaforicamente e não só, para grande infelicidade do meu cardiologista) e passei a usar a reacção às partes fracas que vamos dando como um instrumento perfeito para decidir quem pode e deve trabalhar connosco – e quem não. Sejam pares, ímpares, clientes ou o que forem. Quem percebe a importância da honestidade, quem nos trata como parceiros e se senta ao nosso lado quando lhes dizemos que não estamos a conseguir, fica.

Quem não percebe e se atira à jugular, vai-se. E depressinha.

É tão simples quanto isso.

E sabem o que é mais curioso? Aqueles que percebem, aqueles que se sentam e compreendem e ajudam são aqueles que, ano após ano, mais e melhor continuam a progredir na carreira – e, grosso modo, na vida. Do lado de cá, do lado de lá, do lado que vocês quiserem.

Talvez por ser Verão (e eu estar, portanto, mais silly que o costume), talvez por estar cansado, talvez por serem 5 da manhã e eu dever estar a dormir e de férias (coisa que, como se depreende facilmente, não estou), a verdade é que me parece uma enorme coincidência.

Mas também pode ser só cansaço.

Artigo publicado na edição n.º 254, de Setembro de 2017, da revista Marketeer.
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