Células estaminais { O que são e a sua importância }

Com o início de uma gravidez são várias as questões que vão surgindo. Uma delas, dos tempos modernos, reside na decisão de guardar ou não as células estaminais do cordão umbilical do bebé.

Se para alguns pais a decisão está tomada à partida, para outros a dúvida começa e uma série de questões se colocam. O cordão umbilical, que durante séculos foi considerado apenas um excedente do parto, desprovido de qualquer valor, é actualmente visto como uma fonte de células estaminais com um potencial terapêutico inestimável. Mas o que é afinal a criopreservação de células estaminais e para que serve? E o que são células estaminais?

Características das células estaminais

O ciclo de vida de uma célula envolve um número limitado de divisões antes de se diferenciar para se tornar numa célula especializada, capaz de executar as funções Criopreservação específicas do tecido ao qual pertence. O que torna as células estaminais extraordinárias é, por um lado, a sua capacidade para se dividirem indefinidamente, dando origem a células iguais a si próprias e, por outro, o facto de se conseguirem diferenciar em vários tipos de células distintas. Durante o desenvolvimento embrionário, estas células são responsáveis pela formação do novo ser.

Já no indivíduo adulto, têm como função reparar tecidos danificados e substituir as células que vão morrendo. São elas que, por exemplo, permitem que a pele se vá renovando, formando novas camadas, e que as células do sangue vão sendo substituídas. A capacidade das células estaminais se diferenciarem em vários tipos de células, podendo regenerar tecidos danificados, explica o crescente interesse que a comunidade médica e científica tem vindo a demonstrar, nas últimas décadas, relativamente à utilização destas células em contexto clínico. A verdade é que, apesar dos grandes avanços na área da medicina, continua a haver muitas doenças para as quais são necessárias terapêuticas mais eficazes.

Os transplantes de células estaminais hematopoiéticas iniciaram-se há mais de 45 anos para substituir a medula óssea de pacientes, com doenças do sangue, por uma saudável. No indivíduo adulto, as células estaminais hematopoiéticas encontram- se maioritariamente na medula óssea e originam todas as células do sangue: glóbulos vermelhos, plaquetas e células do sistema imunitário. Entretanto, foram descobertas outras fontes importantes de células estaminais hematopoiéticas alternativas à medula óssea, como o sangue periférico, e, mais recentemente, o sangue do cordão umbilical (SCU). O transplante de células estaminais hematopoiéticas é hoje reconhecido como um procedimento de eficácia comprovada para o tratamento de mais de 80 patologias, nomeadamente doenças hematológicas, imunodeficiências e distúrbios metabólicos. É essencial para muitos pacientes que lutam contra doenças hemato-oncológicas, como, por exemplo, leucemias e linfomas, sendo realizados mais de 30 mil transplantes hematopoiéticos por ano, segundo a European Society for Blood and Marrow Transplantation.

Porquê criopreservar?

O potencial das células estaminais do SCU no tratamento de diversas patologias é indiscutível, mas é necessário proceder à sua recolha na altura do parto. A criopreservação permite que as células estaminais estejam disponíveis em qualquer momento. O sangue, colhido durante o parto, é depois transportado até ao laboratório, onde as células estaminais são isoladas e congeladas a temperaturas muito baixas (cerca de -196° C). Desta forma, é possível armazenar as células sem que estas percam as suas características originais. As células estaminais do SCU têm a vantagem de serem neonatais com características mais primitivas do que as células isoladas de tecidos adultos (como a medula óssea), tendo por isso um maior potencial terapêutico. Para além disso, não foram expostas a “agressões” a que outras são sujeitas ao longo da vida, sendo menor o risco de terem mutações genéticas causadoras de doenças. Nas últimas décadas, a utilização de células estaminais do SCU tem-se revelado uma alternativa preciosa aos transplantes de medula óssea.

Aplicações terapêuticas

Os transplantes hematopoiéticos são a terapia celular com maior sucesso da actualidade. Existem mais de 80 patologias a serem tratadas com células da medula óssea, sangue periférico mobilizado ou SCU. Entre elas, anemias, leucemias, linfomas e mais uma série de doenças hematológicas, oncológicas e metabólicas. Desde o primeiro, em 1988, contam-se já mais de 40 mil os transplantes com SCU. O número crescente de unidades de SCU armazenadas em bancos familiares permitiu que outras doenças, para além das que habitualmente requerem um transplante de células estaminais hematopoiéticas, possam ser tratadas, em contexto experimental, em ensaios clínicos. Muitas destas são doenças pediátricas com uma incidência considerável, como a paralisia cerebral, o autismo, a diabetes tipo 1 e a perda auditiva adquirida. Neste contexto, tem-se verificado um aumento da utilização autóloga de células estaminais, que estão a ser testadas em crianças cujo SCU foi guardado à nascença. Vários grupos de investigadores observaram melhorias significativas a nível motor e cognitivo em crianças com paralisia cerebral infundidas com a sua amostra de SCU. Nos EUA, um desses grupos está agora a testar o efeito da infusão de SCU em crianças com perturbações no espectro do autismo, com resultados preliminares promissores. Em adultos também se tem utilizado SCU em tratamentos experimentais, por exemplo, para lesões da espinal medula e AVC, em contexto alogénico (com células de um dador compatível). Actualmente, para além do SCU, também é possível armazenar as células do tecido do cordão umbilical. Enquanto o sangue do cordão é rico em células hematopoiéticas, o tecido do cordão umbilical é rico noutro tipo de células – as células estaminais mesenquimais. A par do seu potencial para originar diferentes tipos de células, como, por exemplo, células dos músculos, ossos, cartilagem e tecido adiposo, estas células têm ainda a capacidade de regular a actividade do sistema imunitário. Por esta razão, a comunidade científica acredita que estas células poderão desempenhar um papel importante no tratamento de doenças auto imunes, estando neste momento a decorrer ensaios clínicos para o tratamento de doenças como diabetes tipo 1, artrite reumatóide, esclerose múltipla e lúpus, entre outras.

As células mesenquimais do cordão umbilical têm também sido utilizadas em co-transplantação com células estaminais hematopoiéticas, no sentido de aumentar a taxa de sucesso dos transplantes alogénicos. Muitos destes ensaios clínicos encontram-se ainda numa fase inicial, mas alguns apresentam já resultados preliminares promissores.

Dadas as aplicações actuais e o crescente número de ensaios clínicos com células estaminais do sangue e do tecido do cordão umbilical, assume cada vez mais importância a decisão de criopreservação destas células, cuja colheita pode apenas ser feita no momento do parto.

Bancos de células estaminais

O primeiro transplante com SCU foi realizado em 1988, tendo sido feito entre irmãos, para tratar uma criança com anemia de Fanconi (doença congénita que impede a produção de células sanguíneas normais).

O sucesso deste transplante levou ao estabelecimento do primeiro banco de SCU, em Nova Iorque. Com a crescente utilização de SCU no tratamento de várias doenças, foram surgindo, um pouco por todo o mundo, vários bancos públicos e privados (também designados de bancos familiares). Segundo dados recentes, estarão já armazenadas mais de 700 mil unidades de SCU em bancos públicos e cerca de quatro milhões em bancos privados, a nível mundial. O objectivo dos bancos públicos é armazenar um número restrito de amostras representativas do perfil genético da população.

Quando uma amostra é doada, passa a ser propriedade do banco, podendo ser utilizada por qualquer pessoa que dela necessite.

No caso de um banco familiar, a amostra armazenada é propriedade do dador, ficando disponível para utilização pelo próprio ou familiares compatíveis.

Assim, os pais perguntam: “Devo doar o SCU do meu bebé ao banco público?”, ou “Que banco familiar devo escolher?”.

O que é realmente importante é fazer uma escolha informada. Procurar bancos com acreditações internacionais e experiência na libertação de unidades para transplante está entre os pontos mais relevantes a ter em conta. As doações para os bancos públicos são essenciais, sobretudo por parte das minorias étnicas, menos representadas a nível de unidades e que têm, por isso, uma menor probabilidade de encontrar um dador compatível. Guardar as células do SCU num banco familiar permite ter células estaminais disponíveis para, no futuro, o dador as poder utilizar no tratamento de várias doenças, sem correr o risco de rejeição (no caso de transplantes autólogos, isto é, com células do próprio), ou para o tratamento de um familiar, por exemplo, um irmão compatível.

Artigo publicado na revista Kids n.º 1 de Junho de 2017

 

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