Orgulhosa mediocridade

Há uns dias preenchi o meu primeiro livro de reclamações na EMEL. Eu nunca tinha reclamado a vida, nunca de papel passado. Começo por esclarecer que até sou uma defensora da organização. A EMEL nasceu para nos prestar um bom serviço. Regula o estacionamento na cidade, combate os carros estacionados em cima dos passeios e dá-nos dísticos para estacionar no bairro sem pagar. A EMEL é fixe, e foi exactamente por isso que reclamei. Porque fui atendida por um senhor da EMEL que não queria fazer o seu trabalho. Repare: o trabalho deste senhor não é carimbar papéis, é ajudar-me a conseguir estacionar na minha rua, mas ele está claramente pouco interessado em cumprir a sua função. Diz-me, enquanto investiga a documentação: “Neste papel, falta aqui um número na morada. Não lhe posso dar o dístico.” E assunto encerrado. Computer says no. Volte outro dia. Este senhor está ali para seguir procedimentos, não está ali para resolver o problema de ninguém. Entretanto, deixou-me a pensar neste problema que nos ataca a todos pela calada: a orgulhosa mediocridade. Acho que a minha irritação com este tipo de mediocridade é inversamente proporcional à alegria que sinto quando encontro gente que faz questão de fazer bem feito, pondo amor e carinho no que faz só porque sim, seja qual for a função e a profissão, do senhor que faz os palmiers do Careca ao Spike Jonze quando faz o filme da Apple. O que nos leva à nossa actividade.

Também nós, publicitários e marketeers, nos cruzamos com o orgulhosamente medíocre, mesmo que por bondade ou complacência lhe chamemos desmotivação. Não falo de gente que tenta fazer bem e não consegue, porque isso somos todos nós, humanos, muitas vezes. E não me refiro a quem acha que está a fazer bem quando aos olhos dos outros não está, porque isso é apenas subjectividade, afinal critérios há muitos. Falo do minanço de quem não quer saber. Falo de quem nem sequer tenta. Dos que têm sempre desculpas para ter corrido mal, sendo que todas elas envolvem os outros. Computer says no. Gente que encolhe os ombros. Pessoal que está mais interessado em cumprir alíneas do que em resolver problemas. Numa palavra, gente orgulhosamente medíocre.

Não deixa de ser curioso que, num mundo tão obcecado com produtividade, medições e resultados, ainda não se tenha inventado uma app para reduzir o orgulho na mediocridade. Porque ele continua aí, a fazer de conta que trabalha.

Fiquei a pensar no senhor da EMEL e traduzi o exercício para a minha profissão. A minha função é conseguir que a agência faça trabalho que valorize as marcas dos clientes. Para isso tento fazer trabalho que se distinga, e tento fazê-lo relevante. Tento dar indicações claras aos criativos para que entendam a direcção por onde gostava de ir. Tento entender os clientes com quem trabalho para chegar a ideias que façam sentido para eles. Tento que o público entenda e goste do que lhe estamos a dizer. Tento fazer bonito e humano. Tento, tento e volto a tentar todos os dias. E às vezes consigo. Qualquer que seja a nossa profissão, podemos fazer este exercício e creio que chegaremos à conclusão de que o nosso trabalho é sempre tentar fazer bem alguma coisa. É importante saber o que é que queremos fazer bem, óbvio, e é importante tentar.

Até à data, ainda não se inventou outra forma de conseguir fazer bem feito. Mas há muita gente que não tenta e tem orgulho em ficar pelo caminho. Depois acha estranho quando não consegue. Afinal há sempre uma razão. Computer says no.

Susana Albuquerque | Directora criativa Uzina

Artigo publicado na edição da Revista Marketeer n.º 265 de Agosto de 2018.

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