Assimetria facial – Mais vale prevenir que remediar

O desenvolvimento harmonioso e simétrico da face é um aspecto importante na saúde, e nem sempre ocorre de forma espontânea

De facto, além de causas de foro genético ou traumático, acima de 95% das assimetrias têm origem na disfunção das estruturas da cavidade oral e ocorrem na primeira infância. Só nos apercebemos de que algo está menos correcto no desenvolvimento do rosto da criança depois dos 7 ou 8 anos. A prevalência da assimetria facial na população pediátrica e geral é muito elevada, e tem que ser tratada desde cedo.

Causa-efeito

Com efeito, pelos 3 a 4 anos de idade, as estruturas moles da cabeça e pescoço têm um crescimento mais acelerado que os ossos à volta dos quais estas se desenvolvem. Assim, as amígdalas, adenóides e outros tecidos linfoides da faringe (garganta) têm crescimento acelerado, ocupando o espaço das vias aéreas superiores e as crianças deixam de respirar pelo nariz com facilidade. O nariz está geralmente entupido e gradualmente passam a respirar apenas pela boca. Com isto desencadeia-se uma sequência de eventos que levam ao crescimento disfuncional e assimétrico das estruturas da cabeça e do pescoço.

A respiração, a mastigação e a deglutição são factores predominantes no desenvolvimento muscular e ósseo do terço médio e inferior da face humana. Destes, a mastigação é o mais vigoroso, e envolve os músculos mastigatórios. Quando não ocorre de forma simétrica, altera a simetria da face, no terço inferior (abaixo do nariz). A respiração, sua disfunção e sucessivo colapso das estruturas nasais podem provocar assimetrias no terço médio (abaixo dos olhos).

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Este conjunto de alterações descrevem-se como a síndrome do respirador oral, e observam-se alterações inconvenientes em diversas estruturas.

Nariz

No nariz ocorre crescimento estreito ou assimétrico das narinas (uma grande e uma pequena), desvio do septo nasal e crescimento excessivo dos cornetos nasais (osso cresce dentro do nariz e diminui o espaço livre para a passagem de ar e respiração).

Boca

Na boca, as arcadas dentárias sofrem desenvolvimento assimétrico em forma e tamanho. Para respirar pela boca a criança tem que ter a boca entreaberta e manter a língua baixa, no soalho  da boca, alargando a mandíbula. A maxila (arcada superior) cresce estreita e demasiado pequena para os dentes superiores ocluírem com os inferiores, podendo levar ao desvio da mandíbula para conseguir fechar de forma (minimamente) harmoniosa. Nesta maxila não há espaço suficiente para a erupção dos dentes definitivos, que ficarão desalinhados. Isto também leva a desvios no plano oclusal, e a sorrisos “tortos”.

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Mais ainda, quando o “encaixe” entre os dentes não é harmonioso a mastigação é tendencialmente unilateral. O desenvolvimento unilateral dos músculos mastigatórios, e consequentemente do osso mandibular, levam ao desenvolvimento predominante e assimétrico de um dos lados do rosto.

O bruxismo infantil é outra consequência, pois os dentes não encaixam de forma ideal e há falta de estabilidade oclusal (não trinca sempre da mesma maneira e range os dentes) até os dentes eventualmente encontrarem um “encaixe” confortável. Ocorre o desgaste dos dentes, um aperto excessivo e mais cedo ou mais tarde haverá patologia articular e dor.

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Outras correlações comuns são:

Amigdalites

O corpo humano tem barreiras naturais para impedir a entrada de microorganismos. Na respiração nasal os cílios (pêlos) no interior do nariz retêm as bactérias e vírus, que são envolvidos em muco e eliminadas (“ranhocas”). O ar filtrado e aquecido entra nos pulmões. Quando a criança respira pela boca, isto não acontece e ela desenvolve amigdalites frequentes.

Na respiração através da boca (oral) os microorganismos do ar ficam retidos na entrada da garganta, nas amígdalas e adenóides, que inflamam cronicamente e crescem (hipertrofia). Pode até ser necessária a remoção cirúrgica destes órgãos do sistema imunitário, debilitando ainda mais a defesa do organismo.

Alergias

O sistema imunitário reconhece alergénios estranhos ao corpo que ultrapassam as barreiras, como os cílios nasais, e desenvolve anticorpos para os combater. Se existe excesso de alergénios (microorganismos ou pólen, p.e.) que passam pela boca directamente para a garganta, tecidos linfóides e as amígdalas, o corpo desenvolve reacções alérgicas ou hipersensibilidade contra essas partículas, porque se considera constantemente agredido pelo exterior.

Asma

A asma é uma doença inflamatória crónica, e em muitos casos é causada pelo ar frio cheio de alergénios que entra pela boca directamente para os pulmões. Os tecidos pulmonares respondem com hiperreacção e inflamam (incham) reduzindo o diâmetro dos brônquios. A passagem de ar fica restrita e a criança não pode respirar. Necessita de medicação forte, com corticóides, para alargar os brônquios e respirar novamente. A respiração nasal reduz a exposição aos agentes que desencadeiam a asma.

Importância do diagnóstico

O desenvolvimento do rosto pode ser acompanhado, diagnosticando assimetrias e suas causas  precocemente, em tempo útil de serem prevenidas ou corrigidas, e o crescimento redireccionado, pois esses desvios tornam-se problemas de saúde na vida adulta.

Um bom diagnóstico é essencial. A má respiração que desencadeia estas alterações pode ser causada por uma rinite que precisa de tratamento (obstrução crónica e inflamatória das mucosas nasais), ou a impossibilidade de colocar a língua no palato pode ter um freio da língua curto na origem. É necessário estudar o problema em cada criança, a qual deve ser vista por um dentista (em ortodontia ou odontopediatria) pelo menos antes da troca dos primeiros dentes (3/5 anos), após a troca dos primeiros dentes (6/8 anos) e antes de completar a dentição definitiva (9/11 anos) para vigiar o desenvolvimento facial.

O tratamento ortodôntico com intervenção precoce é essencial, prevenindo o aparecimento e intervindo precocemente nas maloclusões já instaladas e nos hábitos que a elas dão origem. É conveniente aproveitar fases de maior crescimento para conseguir melhores e mais céleres resultados no tratamento.

Os pais apercebem-se do problema quando a patologia se começa a agravar, portanto convém ficar atento a alguns sinais de alerta: a criança está com a boca entreaberta enquanto está descontraída, ressona ou respira pela boca enquanto dorme, range os dentes, tem dentes atrasados na erupção, apresenta dentes de leite sem espaço entre eles, tem dentes definitivos com apinhamento, caninos que não erupcionam, etc.

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As assimetrias levam também a compensações posturais, laterais entre cabeça, ombros e anca, com pequenas contorsões em todo o corpo. As grandes descompensações entre a maxila e a mandíbula levam a descompensações sagitais da cabeça (inclinações excessivas para trás ou para a frente) e, posteriormente, a problemas posturais de pescoço, ombros e coluna. Estes problemas agravam-se mais rapidamente em crianças de maior percentil, por crescerem mais rapidamente, e em fases de grande crescimento.

Podemos instaurar alguns hábitos saudáveis através da alimentação, sendo que alimentos  integrais (pão, arroz e massas) e crus (fruta e saladas) desenvolvem a musculatura envolvida na mastigação, nomeadamente a língua, proporcionando um crescimento correcto da maxila. A nível nutricional, alimentos de origem biológica e meios rurais proporcionam incomparavelmente mais aporte vitamínico e de fibras.

É possível prevenir e corrigir a assimetria dos nossos pequenos príncipes e princesas, basta para isso ser diagnosticado precocemente o desvio no desenvolvimento, e isso é possível consultando profissionais treinados nesta área.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.

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