Gap geracional | Os desafios que se colocam aos pais num mundo em mudança

Sara Rodi | Escritora, Argumentista e mãe de quatro filhos

Blog Coisasdepais/ Movimento Por Uma Escola Diferente

Os pais devem ser um exemplo para os seus filhos, não vivendo em função deles e tendo tempo para si. Devem ser carinhosos, mostrar sentimentos e assumir as falhas.

A vida dos pais foi tomada de assalto por um sem-número de teorias, científicas ou de senso comum, que procuram ensiná-los a serem melhores pais. E tudo isso é óptimo, não fosse ter recaído sobre os pais de hoje uma espécie de culpa endógena, quando “fazer o melhor que se pode” parece já nunca chegar. Todos desejam ser bons pais, mas o que é isso, num tempo tão diferente como este? Vivemos hoje um momento histórico diferente de todos os outros e, por mais livros e artigos que leiamos, estaremos a lidar sempre e inevitavelmente com a incerteza, a imprevisibilidade e a maravilhosa individualidade de cada filho. Este artigo é sobre desafios que nos tocam a todos nós. Bem-vindos ao Top 5 da louca e desafiante vida dos pais actuais!

Desafio 1 – Falta de tempo e apoio

A realidade de muitos pais portugueses assenta no pouco tempo que têm para dedicar à família: uma ou duas horas por dia. A nossa taxa de natalidade é a segunda mais baixa da Europa: 1,23 filhos por mulher (dados de 2016), sendo que, para garantir a renovação de gerações, precisaríamos de uma taxa de 2,1. Falta tempo e condições para ter filhos, para criá-los e acompanhá-los. As opções não são muitas, mas há muitos pais a pensar nelas, como a redução do horário de trabalho e a procura de empregos mais compatíveis com os horários das escolas. Há pais a fazer verdadeiros milagres para conseguirem estar com os filhos e proporcionar-lhes tempo de qualidade. Mas, num mundo ideal, não se devia exigir aos pais que fizessem milagres no que toca à educação dos filhos. Antes lhes deviam ser dadas as condições necessárias para o exercício da importante missão que lhes cabe.

Desafio 2 – Tecnologia para todos os gostos

O mundo transformou- se vertiginosamente e continuará a mudar, sem que nenhum de nós consiga adivinhar até onde nos conduzirá. Que desafios se colocarão aos nossos filhos, no futuro? Vários pensadores têm vindo a debruçar-se sobre este assunto, mas enquanto se investiga e se teoriza, vemos crescer os nossos filhos num mundo cada vez mais tecnológico. Segundo um estudo desenvolvido pela FAQtos (INOV-INESC/ /Instituto Superior Técnico), em 2015, 65% das crianças recebem o seu primeiro telemóvel entre os 10 e os 12 anos. E será isto mau? As opiniões dividem-se. Há pais que diabolizam tudo o que soa a tecnológico, mas outros dependem da tecnologia para educar e entreter os filhos. O vício da internet é uma adição recente, mas que pode levar a estados de ansiedade e depressão em idade jovem. Os pais estão, também eles, cada vez mais dependentes dos dispositivos electrónicos . O mundo digital dá-nos a sensação de conseguirmos estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas também nos “rouba” ao mundo real.

Desafio 3 – Educar em cooperação

Não há dúvida de que esta geração é realmente diferente da nossa e vive-se de uma forma muito mais “horizontal”. Os mais jovens não entendem hierarquias, questionam a autoridade imposta e os adultos sem qualquer constrangimento e abordam- nos sem pruridos nem formalismos. E isso não é necessariamente mau. É outra forma de viver, mais globalizada, acessível, sem limites. Mas que é ao mesmo tempo um desafio enorme para quem está a educar, porque exige que se trace uma fronteira clara entre aquilo que é falta de educação e aquilo que é o legítimo questionamento sobre as nossas formas de actuar e educar. E isto não quer dizer que não exista falta de educação. Existe, infelizmente, e muita. Mas existe também porque neste modelo mais “horizontal” é preciso haver orientação, ensinar empatia, gestão de emoções, resiliência, e ninguém o está a ensinar neste momento, sobretudo por falta de tempo.

A verdade é que não vamos poder voltar aos anteriores modelos de autoridade, pelo que urge criar/aprender novos modelos de interacção, cooperação e liderança. E os pais, assim como os professores e restantes agentes educativos, precisam de aprender novas ferramentas que os ajudem a construir um lugar melhor. Precisam também de ouvir os jovens. Perceber o que é que lhes faz sentido e porquê.

Desafio 4 – Saúde ou faz o que eu digo mas não o que eu faço

O ritmo e estilo de vida actuais têm afectado as nossas funções vitais, as nossas relações e as nossas emoções, e também nesta matéria é pedido aos pais que sejam um exemplo de saúde e bons estilos de vida. Recai sobre os pais a responsabilidade de alimentar os filhos de forma saudável, mas depois os cafés, restaurantes e supermercados (às vezes mesmo as escolas e espaços desportivos) continuam cheios de alimentos que são uma tentação para qualquer criança. Isso não isenta os pais de responsabilidades, naturalmente, mas o exemplo não devia vir também da sociedade no seu todo?

Que as crianças dormem pouco é outro facto preocupante. Mas então porque trazem todos os dias trabalhos para casa e tanta matéria para estudar? Os jovens bebem de mais quando saem à noite, e logo se aponta o dedo aos pais, sem que nos questionemos por que continua a venda de álcool a ser um negócio tão lucrativo. O mesmo com o tabaco. Os pais não podem demitir-se das suas funções, mas é bom que a sociedade não se demita também, e não deixe cair sobre os ombros dos pais todos os males do mundo. Se é pela educação que o mundo se transforma, então que se transforme o mundo num lugar educador, onde todos têm de fazer a sua parte.

Desafio 5 – Por uma escola diferente

Enquanto os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) mostram um quadro animador da educação em Portugal, o dia- -a-dia nas escolas faz-se de outros números: nunca tivemos tantos professores desmotivados e nunca tivemos um nível de insatisfação tão grande por parte dos alunos. Os números do PISA não mentem, mas os resultados foram obtidos à custa de uma pressão imensa sobre uma classe que não se sente minimamente valorizada e respeitada, e sobre os pais. E se os professores e os pais estão cansados da escola, o que dizer dos alunos? Crianças tecnológicas que não entendem por que é que continuam a aprender algumas matérias que estão disponíveis na internet à distância de um click. São crianças e jovens de outra era, que vivem a outra velocidade e estão habituadas a outro tipo de estímulos. Eles mudaram. A escola não. E os pais têm de lidar todos os dias com jovens desmotivados, cansados, frustrados, que não sabem o que andam a fazer na escola, numa idade em que deveriam ter sede de conhecimento e prazer na aprendizagem.

É preciso uma escola nova. Mas que escola queremos, afinal? As respostas podem ser muitas e diferentes, o que é desejável, mas todas elas se relacionam com tudo aquilo que escrevi anteriormente. Se os pais padecem de uma crónica falta de tempo, e enquanto não se reajustam as leis da família, a escola é a casa de muitas crianças e jovens. O lugar onde constroem o saber, mas também a sua identidade, onde constroem os seus valores e a sua personalidade. Só assim se garante que as crianças e jovens crescem em pé de igualdade, independentemente das famílias onde nasceram e do maior ou menor apoio que têm em casa. A escola não pode, por isso, demitir- se de educar. E vou até mais longe: se sentimos que os nossos jovens andam perdidos, que andam demasiado obcecados pelo mundo digital e alienados do mundo que os rodeia, e se perderam alguns dos valores que entendemos serem essenciais para construirmos um mundo civilizado, não devia ser essa a prioridade da escola? Projectam-se muitas mudanças para o ensino, a partir do próximo ano lectivo, e essas mudanças assentam sobretudo na transmissão de competências. Aos pais cabe acompanhar essas mesmas mudanças e contribuir para elas. É que desejar uma escola melhor para os filhos não pode ser somente exigir. É antes, e sobretudo, contribuir. Se não presencialmente, com críticas e sugestões, ouvindo os filhos e os professores. E tendo em mente que aquilo que define um bom cidadão e uma pessoa feliz (em última instância, aquilo que todos desejamos para os nossos filhos) não são somente as notas que aparecem na pauta ao longo da sua vida, mas tudo o que se aprende ao longo de tantos anos, competências e valores, dentro e fora dos portões da escola.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.

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