Sono | Os riscos e a adolescência

Teresa Paiva, Neurologista

Dormir bem é importante e essencial ao bem-estar do ser humano. Para ter sucesso, saúde e ser feliz garanta, antes de mais, a qualidade do sono.

Durante o século XX a energia passou a estar disponível de forma generalizada e houve importantes mudanças sociais. Algumas tiveram impacto no sono-vigília: o trabalho por turnos generalizou-se a múltiplos grupos profissionais e a todos os continentes; as viagens intercontinentais tornaram-se comuns; a sociedade do trabalho instalou-se com exigência de maiores ritmos de laboração e maior competição; a sociedade 24/7, 24 horas “online”/7 dias por semana tornou-se a regra.

Por outro lado, os paradigmas culturais mudaram; o ter passou a valer mais do que o ser; os direitos, antes considerados fundamentais, estenderam-se a muitos aspectos não fundamentais; o sucesso tornou-se imperativo e os chamados limites naturais ou biológicos foram substituídos por um “não há limites”; os ideais desapareceram, as notícias do mundo tornaram-se aborrecidas e muitos passaram a estar sós, sem motivação e sem sentido de vida, num mundo carregado de informação.

O poder da tecnologia

O desenvolvimento tecnológico trouxe consigo uma parafernália de instrumentos “high-tech”, entre os quais avultam os jogos, os divertimentos, a televisão, as comunicações, os telemóveis e os computadores pessoais, cada vez mais pequenos e com maiores capacidades.

O mundo, o universo, passou a estar circunscrito ao rectângulo do telemóvel, que, carregado com jogos, chats e vídeos, contém uma série, aparentemente, infinita de coisas monotonamente parecidas. Os jogos vão reforçando o uso com uns toques de sucesso, os chats e os vídeos com uns “likes”. Estes “reforços” vão direitinhos para os centros cerebrais de prazer, e o prazer passa a existir com pouca coisa, mas as pessoas, novas e velhas, ficam presas àquele ecrã, sorriem- -lhe desvanecidas, seguras naquela companhia, inexistente por virtual.

Os jovens, em vez de olharem para o horizonte em campo aberto e perscrutarem o desconhecido, inclinam-se para baixo e focam o “quadradinho”. O pescoço entorta-se e a postura torna-se curvada, as dores cervicais hão-de chegar um dia, mas… até lá…

Os jogos são o máximo! Perdi este, mas vou ganhar o próximo; já matei cinco, mas tenho de matar 10; ganhei 300, mas tenho de chegar aos 500, e assim se continua o jogo. Os jogos viciam, mas até lá… é só mais um joguinho…

Os chats são uma coisa fantástica, como é bom falar muito de coisa nenhuma, estar sempre atento, responder rápido, mesmo que seja com pequenas interjeições concordantes ou discordantes, ou até com ícones, corações e carinhas que multiplicamos às dezenas; estamos ligados, sempre atentos, não vá uma mensagem entrar, sempre próximos, tanto de dia como de noite, com o telemóvel debaixo da almofada para respostas ensonadas.

As câmaras são coisas fantásticas, tão simples e pequeninas! As nossas imagens são uma beleza. Nós somos todos uma beleza! Deixamos de olhar para filmar, deixamos de ver para fotografar. É mesmo lindo, mas os perigos estão atrás da porta ou vêm com mensagens sedutoras, “que linda, és único, és especial”, que enganam e mentem para depois dominar e destruir, agredir ou chantagear no horror do cyberbullying.

Um stress crescente

O stress aumentou, ninguém pára, as crianças com os trabalhos e as actividades escolares, os adultos com o trabalho e as responsabilidades. O multitask tornou- se regra e não, como devia ser, excepção. A atenção anda em ziguezague daqui para ali, deste assunto para aquele e a memória começa a falhar. As crianças, para terem sucesso quando forem adultas, estão em tantas actividades quanto possível, mesmo que os objectivos ou requisitos de algumas sejam os mais opostos. Para terem boas notas andam em múltiplos explicadores, perdendo o hábito de resolver problemas e de aprender de forma independente. Vão cedo para a escola e saem bem tarde, acompanhando os horários dos pais. Muitas crianças estão a trabalhar mais do que as 35 ou 40 horas dos adultos.

Em consequência de tudo isto o dia estendeu- se para a noite, o sono ficou mais curto e passou a ocorrer fora de horas; os ritmos alimentares modificaram-se com refeições rápidas, irregulares e tardias, em pé, a andar, ou com a sandes ao lado do PC. A fadiga tornou-se uma queixa comum. Meninos e pais estão mais ou menos exaustos. Cansadas e cheias de obrigações, as famílias desagregam- -se, reformulam-se em moldes não antes experimentados. No mesmo torvelinho, muitas vezes à beira da ruptura, são envolvidos escolas e professores.

É neste ambiente, sem horas, sem pausas, sem regras, com muitas solicitações e exigências, num meio familiar cansado e irritável, quantas vezes precário por causa da crise ou das zangas, que vivem muitas crianças e adolescentes.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.

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