Alterações emocionais na gravidez

Ana Vale, Enfermeira especialista em Saúde Mental e Gerente do Centro Mulher, Filha e Mãe (www.mulherfilhaemae.pt)

Já alguma vez se questionaram quando é que uma mulher se torna mãe? Será no momento em que simplesmente sente que o quer ser?

Será quando vê um teste de gravidez positivo? Em algum trimestre de gravidez específico? Durante o parto? Quando contacta com o seu bebé? Só no pós-parto?

Acredito que se esta questão fosse feita a várias mulheres diferentes, diversas seriam as respostas que iriamos obter. Possivelmente, e no imediato, algumas ficariam com uma incerteza expressa, e tal acabaria por levá-las, de forma espontânea, a conectarem- se com a sua vivência da maternidade, nomeadamente a alguns momentos mais marcantes desse período, procurando a resposta certa para si.

É neste caminho do tornar-se mãe, e que começa em momentos diferentes para cada mulher, que muitas das alterações emocionais poderão surgir.

Alterações emocionais: o que são?

As alterações emocionais são, tal como o próprio nome indica, alterações ao nível das emoções, neste caso, relativas ao período da gravidez. E escrevo sobre a gravidez em específico, pois é neste período que muitas pessoas julgam, e de forma acertada, que ter alterações emocionais neste período do ciclo de vida é comum. Contudo, há algo que importa salientar quando atentamos sobre este tema: é que nem todas as alterações emocionais devem ser vistas como comuns, assim como nem todas as pessoas que têm alterações emocionais neste período as têm simplesmente devido à componente hormonal, tantas vezes alvo de culpa exclusiva imposta pela própria ou por terceiros, nesta fase da vida. É comum ouvir “sim, estou mais irritada. Deve ser das hormonas”, “sim, eu sei que ando mais sensível, mas é das hormonas, depois passa”. E até pode ser. O que não está certo, no meu ponto de vista e considerando a evidência que temos actualmente disponível neste âmbito, é considerarmos que todas as mulheres têm alterações emocionais devido a este tipo de componente biológica, ou pior, considerarem que, “sendo normal”, pouco ou nada devem fazer neste sentido porque, de acordo com o que ouvem, “é normal viver assim nesta fase”. Esta uma afirmação comum que ouço por parte de várias mulheres com quem contacto na minha prática diária.

De acordo com o que a evidência nos diz, sim, é natural as mulheres apresentarem maior sensibilidade nesta fase do ciclo de vida, assim como maiores oscilações de humor comparativamente a outras fases. Contudo, questiono, será assim tão natural vivenciarem esta fase com uma irritabilidade, falta de interesse, tristeza, maior preocupação, ansiedade, vontade de chorar, apreensivas e com grandes oscilações de humor, de forma constante nesta fase do ciclo de vida? Será que por poderem vir a sentir todas estas alterações emocionais, algo que possivelmente não esperavam nesta fase, tal terá de ser aceite como naturalmente decorrente de uma gravidez, quando até, possivelmente, poderá trazer maior confusão, angústia, inseguranças e medos associados, levando ao desequilíbrio da microbiota da pele do bebé?

Como obter apoio?

A questão em evidência não está, definitivamente, na experiência deste tipo de alterações neste período, mas, sim, onde recorrerem para obter o apoio especializado, caso experienciem este tipo de alterações. E o apoio poderá ser, no imediato, uma pessoa significativa mais próxima, mas deverá ser considerado um profissional de saúde (de preferência especializado na área), caso estas alterações se mantenham e tragam um sofrimento acrescido à mulher e família. A intervenção poderá não passar no imediato pela prescrição de medidas farmacológicas, mas poderá, em primeira instância, passar por medidas não farmacológicas de acompanhamento, onde a valorização, a disponibilização de presença, a empatia e a escuta activa se revelam ferramentas fundamentais, para, numa base de uma relação terapêutica, serem exploradas e aplicadas, consoante a história de cada mulher e respectiva família, que apresenta e manifesta a carência deste tipo de acompanhamento.

Também sei que pedir ajuda poderá não ser no imediato uma tarefa fácil para muitas mulheres, uma vez que ainda existe muito estigma face à saúde mental no geral, não o sendo diferente no período da gravidez e do pós-parto, havendo, de forma associada, muitos mitos subjacentes. Mitos como o facto da gravidez “proteger as mulheres” deste tipo de alterações e como “a gravidez é uma fase de muita felicidade na vida da mulher e família” fazem com que as mulheres, que não sentem este período desta forma, possam ter receio de serem vistas como “más mães” aos olhos de terceiros, escondendo o que efectivamente sentem.

Hoje sabemos que sete em cada 10 mulheres esconde as alterações emocionais que sente durante a gravidez e no pós-parto, e a angústia que estas alterações lhe trazem, intensificando inseguranças e medos subjacentes, o que nos deve fazer pensar enquanto sociedade. Em que é que podemos melhorar para fornecermos a estas mulheres o apoio incondicional de que necessitam nesta fase da vida?

Lembrem-se que estas alterações podem ocorrer na mulher, no homem, e que essa mulher ou esse homem podem ser vossos filhos, amigos, sobrinhos, vizinhos, primos, conhecidos. E que ambos, têm, ou brevemente, terão um bebé nos braços, que será um adulto amanhã. Por isso, só faz mesmo sentido pensarmos esta problemática enquanto sociedade. Vamos começar?

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.

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