Ouvir música e cantar ajudam a falar?

Joana Rombert, Terapeuta da Fala

Durante o último trimestre de gravidez, o bebé é capaz de memorizar sons do mundo exterior, mais especificamente a melodia, entoação da fala ou da música.

A música, além de transmitir ideias, afectos, emoções e sentimentos, pode ser considerada uma forma de linguagem que causa sensações, exerce grande influência no desenvolvimento da criança e funcionamento cerebral.

Todos os bebés nascem com a capacidade de se expressar musicalmente, bem como através da linguagem. Tanto a música como a linguagem estão presentes nos diálogos do bebé. A música é mais uma forma especial de interagir com o bebé e a canção, um pequeno diálogo onde ambos conversam e o bebé participa, interagindo rítmica e melodicamente. Todos os bebés têm uma aptidão musical, que é inata e que se desenvolve desde que estejam expostos a um ambiente musical rico. Quanto mais precocemente estiverem expostos às sensações ou experiências musicais, mais cedo a sua aptidão musical aumenta. Tal como na linguagem, esta aptidão vai diminuindo à medida que a idade avança.

É através das várias experiências e brincadeiras musicais, das descobertas auditivas, da exploração de sons, de diferentes culturas e diversas qualidades de vozes, dos jogos de movimento do corpo, ritmo ou melodia, criações sonoras ou oficinas de instrumentos, que o bebé responde natural e espontaneamente ao que ouve, desenvolvendo a sua aptidão para a música.

Desde cedo o recém-nascido é receptível e revela um enorme interesse pela música, emitindo, palrando e cantarolando sons, antes de dizer as primeiras palavras. Escuta a melodia da voz falada e cantada pela mãe e interessa-se pela música clássica, que o relaxa, acalma ou o mantém alerta, pois é semelhante ao ritmo do bater do coração da mãe.

Também a sua respiração se tornará mais lenta e profunda e, dependendo do ritmo da música, a sua frequência cardíaca aumentará ou diminuirá. Na hora de dormir pode ser benéfico ouvir uma peça de música clássica lenta, pois poderá ajudar a abrandar o ritmo cardíaco e a relaxar o corpo.

Com poucos meses, o bebé entoa melodicamente as canções que a mãe lhe canta e, quando começa a balbuciar, há uma tentativa de canto espontâneo. Balbucia sons únicos e repetitivos e, a pouco a pouco, começa a diferenciar diversas músicas e sons. Nesta altura o bebé fascina-se com o som e sente um enorme prazer por conseguir controlar a sua voz, emitindo mais sons musicais e iniciando movimentos ou balançando o seu corpo.

Entre os oito e onze meses o bebé associa a música a acções e acompanha canções com o pé ou a mão. Distingue mudanças de ritmo, altura tonal (grave ou agudo), intensidade (forte ou fraca) e começa a criar e produzir melodias espontâneas.

Por volta dos doze até aos dezoito meses o ritmo está mais desenvolvido, os movimentos mais sincronizados e reproduz aquilo que ouve, alongando as vogais de forma musical. O bebé prefere sons musicais, cantados e parece distingui-los de sons não musicais.

Aos dois anos reage a qualquer tipo de som, seja cantando ou dançando ao seu ritmo, repete partes da letra, conhecendo o contorno melódico e rítmico da canção e gostará igualmente de associar gestos aos sons musicais.

Aos três anos a criança adora dançar, cantar, descobrir as músicas que lhe são significativas, da cultura em que está inserida, e aparecem igualmente as “canções do imaginário”, pelas quais ela aprende, conta histórias e cria novas versões de canções já conhecidas. Interessar-se-á ainda por tocar um instrumento musical e escutar diversos estilos musicais ou músicas de outras línguas ou culturas. Quando reproduz uma canção espontaneamente, reflecte a forma como pensa e se relaciona com o mundo.

Ao longo do desenvolvimento, a criança encontra na música uma forma privilegiada de se exprimir, sendo essencial despertar o seu ouvido musical, o sentido rítmico e a reprodução de frases musicais cada vez mais complexas. Desenvolver a sua aptidão musical permite ainda gerar atitudes musicais positivas, despertar o prazer em todos os estilos musicais e influenciar a sua vida e as futuras aprendizagens.

Através da música a criança descobre novas palavras, exercita a fala, assim como desenvolve outras capacidades linguísticas (tem mais facilidade na aquisição de uma língua estrangeira), auditivas, perceptivas (reconhecimento e discriminação dos sons), potencia a aprendizagem cognitiva (memória, raciocínio, ordenação sequencial), coordenação motora ou pré-académica (leitura, escrita e matemática). Para além disso promove competências sociais, de criatividade e improvisação, onde revela a capacidade de pensar e de se expressar por si própria.

Quando escuta a música de quem ama, o bebé encontra uma nova forma de se vincular, exprimir afectos, desenvolvendo a sua sensibilidade e o seu lado criativo, onde inventa e improvisa novas formas musicais. Mais importantes do que as palavras em si são a melodia, a expressividade e musicalidade, no modo como os pais se dirigem ao bebé, proporcionando-lhe uma interacção espontânea e natural, dando espaço às primeiras conversações amorosas.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.

Artigos relacionados
Comentários
A carregar...