Cuidados dentários na primeira infância

Hugo Madeira, Médico dentista Clínica Dentária Hugo Madeira

A “Fada dos Dentes” surge nas conversas entre pais e filhos, quando as crianças têm cerca de 5 anos, fase em que os dentes de leite começam a ser substituídos pelos dentes definitivos.

Para muitas famílias, até ao dia em que o primeiro dente começa a abanar, os dentes nunca foram tema de conversa, sendo ignorado um assunto que tanta influência tem em toda a nossa vida: a saúde oral.

Sorrir faz parte da vida, de uma vida inteira! Adoramos ver um bebé sorrir pela primeira vez, mesmo quando ainda não tem dentes; criamos mais facilmente empatia com pessoas que sorriem, mesmo que sejam desconhecidos; desejamos chegar à velhice com um sorriso no rosto, mesmo que a vida tenha tido os seus altos e baixos. Mas se sorrir sabe sempre melhor quando temos dentes bonitos e saudáveis, por que é que tantas vezes não damos a importância devida à higiene oral?

Podemos não ter resposta para esta pergunta, mas sabemos quem devem ser os primeiros a pensar nos sorrisos do futuro. Os pais devem ser os primeiros a pensar na saúde oral dos seus filhos, ainda durante a gravidez, através da saúde da própria mãe, pois é durante esta fase que os dentes do bebé se formam, mesmo que nós não os vejamos. Os nutrientes passados ao bebé durante a gestação serão determinantes para o seu desenvolvimento, sendo essencial que a mãe tenha uma atenção especial aos seus hábitos alimentares e rotinas diárias. Boas doses de vitamina D, por exemplo, ajudam na fixação do cálcio, tão importante para o fortalecimento dos ossos e dentes.

Esta passagem de nutrientes da mãe para o bebé prolonga-se pelo período da amamentação, sendo depois a criança a recebê-los directamente, também através da alimentação e da exposição solar. Poderá parecer redundante, mas antes das escovas de dentes “entrarem em cena”, estes cuidados farão toda a diferença na formação da dentição, conferindo-lhe a força que ela precisa para ser saudável durante uma vida inteira, primeiro sob a forma dos dentes de leite, depois nos dentes definitivos.

Os primeiros dentinhos começam a desenvolver-se ainda nas primeiras semanas de gravidez e aparecem na cavidade oral por volta dos 6 meses, seguindo- se a fase de dentição mista, que se inicia por volta dos 5/6 anos, altura em que surgem os dentes definitivos para durarem a vida toda.

Desengane-se quem pensa que os dentes de leite, por serem temporários, não carecem de cuidados; a saúde destes dentes, conhecidos por serem pequenos e branquinhos, vai preparar a boca para receber os dentes definitivos, deixando ou não um bom legado.

Que cuidados ter com os dentes de leite?

São o nosso primeiro conjunto de dentes e, ao longo dos seus anos iniciais, requerem cuidados adaptados ao desenvolvimento da criança.

1) O exemplo dos pais

Nos primeiros anos de vida, as crianças são autênticas esponjas e imitam tudo o que vêem. Nós, adultos, só temos de nos preocupar em ser um bom exemplo em tudo, incluindo nos hábitos da higiene oral. Se os filhos crescerem a ver os pais a ter cuidados com os seus dentes, a probabilidade de eles copiarem esses hábitos é bastante maior. Escove os dentes perto das crianças, deixe que eles o vejam a comprar a escova, a pasta e o fio dentário e, sempre que surgirem perguntas, responda com naturalidade.

2) Primeira ida ao dentista

É aconselhado que a primeira consulta de Odontopediatria seja feita após o rompimento do primeiro dentinho, o que normalmente acontece por volta dos 6 meses do bebé. Desta forma, o dentista poderá avaliar a cavidade oral, a saúde das gengivas e a estrutura maxilar, conseguindo acompanhar o crescimento de toda a dentição desde o primeiro momento. As grandes vantagens em iniciar cedo as idas da criança a um consultório de medicina dentária são essencialmente três: prevenir o aparecimento de cárie, impedir que a criança desenvolva medo de ir ao dentista e esclarecer todas as dúvidas dos pais. Depois desta primeira vez, as visitas ao dentista devem tornar- -se um hábito, sendo que o aconselhável é uma ida ao consultório a cada 6 meses.

3) Início da escovagem em casa

Mesmo sem dentes, é importante higienizar as gengivas. Pode utilizar uma compressa, por exemplo. Se a criança mostrar vontade em imitar os pais no momento da escovagem dos dentes, aproveite a iniciativa e ofereça-lhe uma escova infantil, de cabeça macia e deixe que a criança o imite e brinque com ela ao seu lado, durante a sua higiene. É sinal de que o primeiro ponto está a correr bem. Quando os dentes começarem realmente a nascer, aí sim, é essencial que a criança tenha a sua própria escova e seja incentivada a utilizá-la, no mínimo, duas vezes por dia – de manhã após o pequeno-almoço e à noite antes de deitar –, primeiro com a ajuda dos pais, depois sozinha, por volta dos 7/8 anos.

4) Dicas para uma boa escovagem

Não basta escovar, tem de escovar bem. Os movimentos da escova devem ser circulares, e não de vaivém; em todos os dentes, desde os incisivos centrais até aos molares no fundo da boca; sempre na parte da frente e na parte de trás de cada dente e na zona onde mastigam. A quantidade de pasta dentífrica fluoretada deve ser adequada à idade da criança, variando entre o equivalente a um bago de arroz e uma ervilha.

5) A escolha dos utensílios

Tudo deve ser adaptado à idade da criança e à sua autonomia, ao número de dentes e tipo de dentição. No que toca à escova, quando mais pequena for a cabeça, melhor, para mais facilmente chegar a toda a superfície de cada dente; a escova deve ser trocada, no máximo, a cada três meses. A pasta deve ser fluoretada entre 1000-1500 ppm de flúor (partes por milhão), desde o nascimento do primeiro dente, desde que a quantidade de pasta seja supervisionada pelos pais. Se através da cor da escova, sabor e textura da pasta, ou personagens associadas, conseguir motivar mais a criança, óptimo. Quanto mais ela se divertir com este momento de higiene oral, melhor.

6) Introdução do fio dentário

Infelizmente é muitas vezes esquecido, não só pelas crianças mas também pelos adultos, razão pela qual muitas cáries se formam onde um dente se encosta ao outro. Desde que exista contacto entre dentes, é fundamental passar fio dentário em toda a boca, sempre antes da escovagem da noite, para que os resíduos alimentares não permaneçam escondidos nos cantinhos estreitos. No início, será mais fácil a utilização de fio dentário com suporte, seja com a ajuda dos pais ou não, quando a criança já tiver a destreza ideal.

7) Alimentação com regras

Além de todos os efeitos negativos que têm na saúde em geral, os açúcares têm um impacto inquestionavelmente prejudicial na saúde oral, com consequências para o resto da vida. Embora docinhos no paladar, os alimentos com sacarose e os hidratos de carbono refinados têm uma acção ácida no esmalte do dente e na gengiva, enfraquecendo a dentição e potenciando o desenvolvimento de cárie. Posto isto, por melhores que sejam os hábitos de higiene oral, a dieta das crianças deve evitar os açúcares de forma rotineira, especialmente antes de deitar, evitando que as bactérias trabalhem enquanto a criança dorme.

Lição dentária aprendida

esperado que, até aos 13 anos, a criança já tenha todos os dentes definitivos, de preferência saudáveis, e todas estas rotinas automatizadas. Mas para que isso aconteça, não chegará obrigar as crianças a escovar os dentes duas vezes por dia e levá-las ao dentista sob ameaça, muito pelo contrário. Todo este processo deve ser educativo, havendo um esforço dos pais e dos dentistas para que a criança entenda a razão de cada passo a seguir, caso contrário, se a aprendizagem for traumática, dificilmente terá um efeito positivo e de longa duração.

Embora o objectivo de cada ida ao dentista seja a prevenção – para evitar complicações e para que o dentista não seja associado apenas à doença e à dor –, no caso de ser necessário iniciar um tratamento, não é caso para alarme. Da mesma forma que as consultas de rotina são adaptadas aos mais pequenos, também as intervenções o são. Se for um tratamento que precise de anestesia, por exemplo, a própria será dada na dose adequada e com recurso a técnicas subtis, que não aumentem os níveis de ansiedade, nem da criança, nem dos pais. Tal como na fase da prevenção, também em caso de tratamento a conversa com as crianças é fundamental. Elas devem perceber o que se passa, através dos pais e/ou do odontopediatra, desde a origem do problema até à forma como vai ser resolvido, sempre com um discurso adaptado à sua idade. Tal como não há motivo para os pais sentirem vergonha em caso de dúvidas, devendo esclarecê-las junto do odontopediatra. Este acompanhamento durante os tratamentos é essencial, para que pais e crianças não se sintam perdidos e consigam evitar a repetição do problema. A saúde oral é a chave para evitar problemas dentários ao longo da vida (e a chave para poupar os pais de tantas preocupações durante o crescimento dos filhos), por isso não tenha medo de responder a todas as dúvidas e perguntas, pedindo ajuda ao odontopediatra sempre que necessário.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.

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