Alergias, o que são e como se combatem

Mário Morais de Almeida, Médico imunoalergologista e coordenador do Centro de Alergia dos  Hospitais CUF

Cada vez mais frequentes, atingem as nossas crianças de uma forma quase epidémica.

As alergias são respostas exageradas do organismo humano ao ambiente que nos rodeia; são um excesso de defesas, tendo uma forte tendência familiar e sendo cada vez mais frequentes, atingindo as nossas crianças de uma forma quase epidémica.

O que é uma doença alérgica e quais as mais frequentes nas crianças?

O estilo de vida associado ao desenvolvimento, viver mais tempo dentro de casa e menos a praticar exercício físico, o aumento da poluição atmosférica e da exposição ao fumo do tabaco, as alterações dos regimes alimentares e a obesidade são alguns dos factores responsáveis pelo aumento explosivo que ocorreu nas doenças alérgicas nas últimas décadas.

A rinite, a asma e o eczema atópico podem afectar até 40% das crianças portuguesas, sendo a rinite a manifestação mais frequente, afectando 25% das nossas crianças em idade escolar; a asma afecta cerca de 10% e o eczema atópico mais de 10%… Em relação à alergia alimentar estima-se que afecte 5 a 10% da população pediátrica.

E em muitos casos estas doenças aparecem associadas: a maioria dos asmáticos tem rinite, quase metade das crianças com rinite pode ter asma, mais de metade das crianças com eczema atópico pode vir a desenvolver asma ou rinite.

No entanto, apesar de estas doenças alérgicas serem muito frequentes, continua a existir um problema de falta de diagnóstico e consequente ausência de tratamento, causando muito sofrimento às crianças afectadas bem como às suas famílias.

A rinite é caracterizada pela ocorrência de espirros, nariz entupido, comichão e pingo no nariz, que se associam com muita frequência a queixas oculares de olho vermelho, com comichão, lacrimejo e sensação de corpo estranho.

A asma manifesta-se por sintomas de tosse, dificuldade em respirar, pressão no peito e pieira, sendo causa frequente de faltas à escola, recursos ao serviço de urgência e internamentos hospitalares. Pode mesmo ser causa de morte, apesar de um desfecho fatal de uma crise de asma ser uma realidade inaceitável e evitável. A limitação da qualidade de vida da criança, incluindo a realização de actividades desportivas, é frequente, o que não deve ocorrer numa asma que se pretende controlada. A maioria das crianças alérgicas está sensibilizada aos ácaros do pó, presentes de uma forma constante e universal nas nossas habitações, podendo sensibilizar- se aos animais domésticos, tais como gato, cão, coelho ou hamster, aos fungos e às baratas. Outra causa frequente de sensibilização são os pólenes, existentes na atmosfera, em especial na Primavera.

Outra patologia alérgica mais frequente na infância é a alergia alimentar, em especial nos primeiros anos de vida. No nosso país, os alimentos mais frequentemente implicados são o leite e o ovo. A partir da idade escolar é frequente a alergia a outro tipo de alimentos, como o amendoim e os frutos secos, os mariscos e os frutos frescos.

Qual a alergia mais grave?

A forma mais grave de alergia é a anafilaxia, reacção potencialmente fatal. Na criança, a alergia alimentar é a primeira causa de anafilaxia. Em alguns casos, a ingestão dos alergénios, mesmo em quantidades mínimas, ocultados noutros alimentos (por exemplo, leite misturado com sumos de frutas, ou frutos secos em barras de cereais), pode ser extremamente grave, podendo mesmo colocar em risco de vida a criança alérgica. Foi de enorme importância a legislação, que obriga a que os alimentos considerados com potencial alergénico elevado para a nossa população devam ser obrigatoriamente referidos como tal na rotulagem.

A anafilaxia é uma situação de emergência médica, tendo estes doentes indicação para terem consigo dispositivos do tipo caneta para administração de adrenalina.

Ainda a não esquecer, outras causas de reacções alérgicas graves, que podem também ocorrer na criança, como a alergia a veneno de insectos, abelhas ou vespas, bem como algumas situações de alergia medicamentosa, ou alergia ao látex (borracha).

Em conclusão… será que é alergia?

”Sempre a tossir”, “sempre cansado”, “não consegue correr”, “afasta-se dos outros, pois não quer ficar para trás”, “sempre a coçar-se”, “sempre constipado”, “sempre a tomar antibiótico”, “acorda sempre com sono”, “ressona tanto”, “muitas medicações e sempre na mesma”, “pareço eu quando era criança”, “diziam que passava com a idade, mas começo a duvidar”… Questione os profissionais de saúde, fale dos sintomas e deixe que a criança também se queixe, pois algo pode e deve ser feito pelos seus filhos. A questão não é pedir muitos exames; é, isso sim, devolver qualidade de vida, com alegria, sem alergia.

Deve falar abertamente com o seu médico. Falar das suas preocupações e de como a vida dos seus filhos e de toda a família está a ser limitada. Procurar que algo seja feito para mudar a situação. E não é fazer imensos exames, por vezes irrelevantes. É tentar intervir, modificar a evolução dos acontecimentos, controlar a situação, não deixando que as doenças alérgicas assumam o controlo.

Se as alergias estão a afectar a qualidade de vida dos seus filhos, procure ajuda!

Todas as alergias têm tratamento? Quais os mais habituais?

Os medicamentos para o tratamento das alergias podem ser divididos em dois tipos:

1) Medicamentos sintomáticos, para o alívio das queixas, incluindo anti- -histamínicos não sedativos para o controlo dos sintomas de alergia a nível do nariz, dos olhos ou da pele e broncodilatadores para o tratamento das queixas de asma.

2) Medicamentos preventivos, anti-inflamatórios, que permitem combater a inflamação alérgica e evitar o aparecimento dos sintomas. Os mais eficazes são os corticosteróides, seja por via nasal no tratamento da rinite, seja por via inalatória brônquica no tratamento da asma. Outros medicamentos deste grupo são os antileucotrienos e as cromonas.

As vacinas antialérgicas são um tratamento específico, dirigido ao alergénio implicado, que têm uma grande eficácia quando indicadas pelo alergologista. A via de administração mais frequente é a injecção por via subcutânea, mas existem outras formas, como aplicação sublingual de gotas ou comprimidos. É um método de tratamento que visa modificar a evolução da doença alérgica; por exemplo, em doentes com rinite a pólenes, que têm risco aumentado de vir a desenvolver asma, as vacinas poderão prevenir esta evolução.

As medidas de evicção são um dos pilares do tratamento e não devem ser esquecidas. A referir:

1) Evitar os alergénios do ambiente interior

Os ácaros do pó doméstico representam a principal causa de alergia na população portuguesa. As medidas aconselhadas para evitar a exposição aos ácaros do pó são:

• manter um arejamento e ventilação adequadas;

• evitar alcatifas e carpetes (substituir por pavimento de linóleo, mosaico ou madeira envernizada);

• colocar coberturas antiácaros nos colchões e almofadas;

• utilizar lençóis de algodão e edredão sintético;

• lavar a roupa da cama e as cobertas plásticas com água idealmente a 600 C;

• remover do quarto peluches ou objectos que acumulem pó (ex. livros);

• usar aspirador com filtro de alta eficiência (HEPA);

• controlar a humidade relativa em valor inferior a 50% (os aparelhos de ar condicionado são eficazes, mas deverá ser efectuada uma limpeza regular dos filtros; os desumidificadores podem ser úteis);

• os produtos acaricidas podem ser uma medida complementar, mas não substituem a aspiração regular.

Nos doentes alérgicos a fungos, as medidas de controlo ambiental são semelhantes.

Nos doentes alérgicos a animais domésticos poderá ser necessária a sua remoção da habitação.

2) Evitar os alergénios do ambiente exterior

Os pólenes são os alergénios mais importantes do ambiente exterior. Para os doentes alérgicos aos pólenes algumas medidas podem ser úteis: conhecer o boletim polínico da região (disponível em www.spaic.pt); planear viagens elegendo alturas do ano e locais livres do(s) pólen(es) para os quais é alérgico; evitar ir para o campo durante os períodos de grande concentração de pólenes; manter as janelas fechadas durante o dia em casa; usar óculos escuros; viajar com as janelas fechadas e os motociclistas devem usar capacete integral.

3) Evitar o fumo do tabaco

O fumo do tabaco aumenta o risco do aparecimento de asma e outras doenças alérgicas, e nas crianças com asma é um conhecido factor desencadeante das crises, associando-se a maior gravidade da doença, com aumento do risco de crises graves com internamento hospitalar e mortalidade. Os pais das crianças asmáticas deverão ter consciência de que se fumam, ou deixam que outros fumem perto dos seus filhos, estão a prejudicar gravemente a sua saúde. É preciso não esquecer que a criança não pode manifestar verbalmente o seu mal- -estar, e que a tosse é habitualmente a sua única forma de expressão.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.

Artigos relacionados
Comentários
A carregar...