Algarve, Junho/Julho 2018

Não se preocupem, não vou obrigar-vos a ver as fotos das minhas férias como se fazia dantes. A referência geográfica e temporal serve apenas para vos situar. E a situação é o mais banal possível:

Família ruma ao sul para duas semanas de papo para o ar com um livro na mão – ou um telemóvel no caso dos adolescentes.  Casa alugada perto da praia, simpática. Na sala um ecrã enorme promete facilitar o acompanhamento dos jogos do Mundial. Não é que alguém ligue muito à televisão nas férias. Mas mesmo assim liga-se e, quando se pega no comando, começa uma experiência sociológica inesperada: só há quatro canais. Um ecrã enorme e apenas quatro canais, RTP1, RTP2, SIC e TVI. Não há SIC Notícias, não há CNN, não há FOX e muito menos Sport TV. Só quatro canais. E agora pode finalmente ver-se o que vê a maioria dos portugueses que vêem televisão.

E a verdade é que não é bonito de se ver. Porque os atentados à inteligência nunca são bonitos de se ver. Porque o paternalismo arrogante disfarçado de empatia dá vergonha alheia, porque o serviço público ou privado não serve ninguém quando embrutece e não eleva. Porque o entretenimento não tem de ser mentecapto. Se quiserem deixamos de fora a RTP2 por causa da programação infantil e das séries alternativas. E deixamos também de fora a Informação de todos os canais, embora também tenha dado por mim a desesperar tentando evitar sem sucesso ver as mesmas notícias alinhadas da mesma forma, tentando sobreviver a uma overdose de Presidente da República e de directos desnecessários. Mas mesmo assim deixemos de fora a Informação.

Vejamos a programação generalista. O investimento publicitário segue as audiências. As métricas, de que as marcas tanto gostam, determinam onde se põem os milhões e, a ver pelos blocos publicitários, há muitos milhões ainda disponíveis para os canais generalistas. Mas a mim parece-me que o que as marcas fazem ao investir cegamente no que tem audiência é legitimar aquele tipo de programação, é ser cúmplices da gritaria e da foleirada, é fingir que não somos melhores do que os programas das manhãs e das tardes e das novelas todas iguais.

Não quero dizer que toda a gente devia ver o canal Q ou o Mezzo ou a BBC. Quero dizer que a diversidade é importante, quero dizer que alinhar pelo mínimo denominador comum é não só preguiçoso, como mesquinho, quero dizer que para a televisão não morrer é preciso que esteja à altura. E a nossa televisão generalista não está. Por isso o Netflix e o HULU e o YouTube e o streaming pirata estão a ganhar.

Quando eu era criança havia só dois canais, mas posso garantir que havia mais diversidade e qualidade do que com o dobro.

Judite Mota
Directora criativa Young & Rubicam Redcell
[email protected]
Paulo Alexandrino

Artigo publicado na edição n.º 264 de Julho da revista Marketeer.

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