Dá Licença: uma ode aos sentidos no Alentejo

Ode à visão, que se retém no pormenor e se estende ao infinito; ao olfacto, que chega da terra e das plantas; ao tacto, do toque na pedra; ao paladar, de produtos da região; e à audição, da brisa, dos pássaros, das ovelhas e dos acordes de música que vão sendo servidos. Em Estremoz, há uma boa história para contar em formato de hotel ou guesthouse.

Texto de M.ª João Vieira Pinto

Fotos de Francisco Nogueira

Dá licença? Posso-lhe contar um segredo? Mas, chiu, muito baixinho para ninguém ouvir… Ali para os lados de Estremoz, no alto de um olival, há um pequeno paraíso guardado. Não, não conte a ninguém porque é diamante raro. Chama-se Dá Licença, mas quase não é preciso pedir para entrar. Porque Vítor Borges e Franck Laigneau, os anfitriões e culpados de tudo, acolhem como se fosse amigo de uma vida. Um gosto natural de quem deixou tudo para se entregar a um sonho de vida: um hotel em jeito de guesthouse de luxo em pleno Alentejo, que remete para paragens entre a Grécia ou Lanzarote, e onde o tempo ainda passa devagar. Para se olhar tudo com gosto, perceber detalhes, cortes de luz, sombras e contrastes.

Ali, não houve obra do acaso mas uma entrega plena e total. Ou não tivesse Vítor passado pelas Belas-Artes e vivido anos enredado em marcas de luxo como uma Hermès; e não fosse Franck ex-actor e galerista!

É um luxo ser acolhido no Dá Licença. Um luxo bom, sem preço, e onde a marca se guarda na memória ou memórias que se traz.

Dá Licença_foto de francisco nogueira

Cheguei logo depois da hora de almoço. Não foi preciso mais que minutos para perceber que os dois dias seriam para guardar fundo. Assim que estaciono, Franck aproxima-se com sorriso rasgado e braço aberto. Não é pose, é sentido, percebo mais tarde. Vítor junta-se logo depois. Uma água ou um chá para refrescar da viagem e agradeço que me apresentem o projecto. Ou a história! Os dois. Cansados de dias sem horas ou sem tempo, sonharam com Portugal e o interior para uma casa que fosse de férias. Procuraram, até se deixarem seduzir pelo pôr-do-sol que se deitava sobre os montes e olivais alentejanos, a 7 km de Estremoz. Num terreno bem superior ao que tinham imaginado – 120 hectares – só tinham duas opções: desistir ou mudar o projecto. Agarraram o segundo e, cinco anos depois, abriam portas onde antes se ergueu casa das freiras do Convento de Estremoz. E mais. No total, são três os edifícios que Franck e Vítor me apresentam, e que incluem um total de cinco suites e três quartos com áreas que começam nos 50 e chegam aos 180 m². «Nenhum é igual», avança Franck no primeiro passo. Percebemos, assim que entramos na primeira suíte (verdadeira casa). Os pormenores, os elementos de decoração, entre tapeçarias, móveis ou quadros, não são duplicáveis. «Foram sendo comprados em muitos países, muitos anos», confirma Vítor, enquanto vai apresentando áreas, abrindo portas, contando histórias. Como as sensações que quer transmitir com a superfície meio enrugada dos lavatórios, em mármore, que o próprio desenhou, ou a escolha da imponente chaminé em forma de gota logo à entrada de casa, de 1960 e comprada em Itália.

Percebe por que é que ali não houve encolher de ombros ou assim-assim? É que é tudo isto, e mais ainda, que se vai descobrindo com o passar das horas, com a entrega ao espaço, ou a chegada da noite e de outras luzes. Como as que iluminam os vários espaços de água – há uma piscina comum, redonda, uma “infinity pool” verde-esmeralda e um tanque no alpendre, onde se pode tomar o pequeno-almoço ao ar livre.

Por falar em comida, tenho que confessar que vim de receita no bolso, de um creme de couve-flor com rabanete, pesto de coentros, rebentos do mesmo e pinhão torrado, cozinhado pelo… Vítor e servido ao jantar (o menu é sempre surpresa e só nos pedem preferências ou intolerâncias)! O cuidado estende-se aqui, à escolha dos produtos a servir aos hóspedes. Por isso, guarde-se bem para o pequeno-almoço que chega, compassado, com fruta, panquecas, pão alentejano, requeijão da zona, sumo de laranja, compotas, iogurte com mel e nozes da propriedade, chá e café… ! Enquanto os montes e vales nos embalam, pouco fica.

Por ali, há mesmo mimo e muitos mimos. Lareira acesa se nos aconchega, um filme para projectar em tela do quarto ou ar livre se a noite é de céu com estrelas. Num retiro do mundo onde o silêncio se instala, também, e que se desdobra entre um corpo principal, com pátio central, constituído pelos espaços comuns, sala de jantar, salas, uma suite e dois quartos; um segundo núcleo com duas suítes, cada uma com uma piscina privada, e um último com duas suítes e um quarto.

Vítor e Franck, dão licença que volte?

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