Do disparate

O texto que se segue corre sérios riscos de soar pedante, arrogante e, pior do que isso, efectivamente sê-lo – sem quaisquer contrapartidas cómicas ou sequer remotamente construtivas. Mas divago.

Sempre achei que dizer (ou, no caso, escrever) disparates fazia parte. Da vida em geral e da minha em particular. Acresce a isto o facto a) estar sem tempo para escrever este texto b) ter comido (e pior, bebido) de mais ao almoço e c) estarmos no Verão, a chamada silly season, facto que aparentemente me dá liberdade (auto-atribuída, mas ainda assim) para escrever ainda mais disparates do que o normal. Mas continuo a divagar.

Tudo começou quando conheci um parvo. Éramos novos e trabalhávamos na mesma agência. E ainda que não fosse mau rapaz, ainda que não fosse bom copy, ainda que não tivesse nada de especial e também não fizesse mal a ninguém, a verdade é que era parvo. Sem ter noção disso (que é uma condição sine qua non para se ser parvo, convém notar).

Importa dizer que ser parvo não é uma coisa má. Não é boa, é certo, mas no limite é apenas uma coisa irritante. É aquele tipo que tem sempre uma história irrelevante para contar, um comentário pouco esclarecido para partilhar e pouco ou nada para acrescentar. Que nunca faz mal, mas aborrece um bocadinho quem está a (tentar) fazer bem.

Mudando de metáfora, é uma comichão. Dá vontade de coçar (ainda que saibamos que não o devemos fazer), mas não mata ninguém. Mói um bocadinho, mas não é o fim do mundo.Estou a divagar outra vez, não estou? Rais’parta o mojito. Adiante.

Na altura não liguei muito – afinal de contas, era só um parvo. Mas de lá para cá percebi que os parvos estão um pouco por todo o lado – nas agências, nos clientes, nos parceiros (que é como fornecedores, mas mais caro), nos pitchs, nos festivais, nas revistas (esta é aquela altura em que me podem enfiar a carapuça, se vos ajudar à digestão)… e que se um parvo incomoda um pouco a gente, muitos parvos têm tendência a incomodar cada vez mais.

E tantos parvos conheci que, um dia, tive uma ideia (parva, obviamente): e se todos (nós, os bons, os não-parvos e extremamente modestos, bem entendido) pagássemos um imposto (sei lá, 10 euros por mês? 15 euros? Quanto vale um parvo para vocês?) para financiar a sua ida (a dos parvos, entenda-se) para uma mesma agência?

Publicitários e marketeers, criativos e clientes, produtores, realizadores e até um ou outro jornalista, todos os (que são) parvos num mesmo espaço. Físico, de preferência. Bem pagos (os parvos querem-se felizes, para chatearem menos) com os tais impostos e com liberdade para fazerem tudo o que quisessem – menos trabalho a sério.

Ou seja, podiam escrever, filmar e gravar de três em pipa para notícias, sites, revistas e até mesmo aquelas revistas que fazem notícias sobre os sites que escrevem notícias. Podiam, inclusive, ter um festival só para eles (como não?), em que todos os trabalhos ganhavam um grand prix diferente – ah, desculpem, isso já existe, com aqueles prémios do… da… enfim, deixem lá.

No fundo, podiam tudo. Para marcas nacionais, internacionais, em português ou até naquele inglês ridículo e cheio de erros que a malta gosta de usar quando faz posts no Facebook, porque vêem imenso Netflix com legendas em inglês.

Podiam ser todos directores e até copiar as ideias e os cases uns dos outros (as chamadas referências), prática essa que seria aplaudida e recebida com um número muito expressivo de likes (comprados por atacado a empresas chinesas de moral duvidosa), emojis customizados e memes. A única coisa que não podiam fazer… era trabalho. Daquele a sério. Que já custa a fazer sem os parvos a empatar tudo. Ou seja, não podiam ir a pitchs, não podiam ser clientes, não podiam opinar, realizar, ser júris em festivais a sério e, tirando respirar, não podiam mais porra nenhuma uma vez fora da agência.

De resto, era só serem felizes. E disparates à parte, nós (confessem lá), também.

Por Tiago Viegas

Partner da The Hotel

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Artigo publicado na edição n.º 276 da revista Marketeer de Julho de 2019.

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