Sr. presidente da CNE, quer que lhe empreste o Pedro Ferreira?

Trabalhar 20 anos com um dos melhores, senão o melhor, director de arte do País, estragou-me. Tal como se estraga uma criança com mimos, porque não conseguimos resistir a dar-lhe colo, também o Pedro Ferreira me deu mimos continuados de bom-gosto, sentido estético, direcção de arte, tipografia, fotografia, cinematografia e craft. Estragou-me com cada layout, cada fotograma, cada enquadramento, cada composição. Como 20 anos é muito tempo, também me estragou, algures no fim dos gordos anos 90, com a escolha dos melhores fotógrafos nacionais ou internacionais e, se hoje os budgets disponíveis, a desculpa “isto é só para digital” e a tirania do Excel já não permitem tamanhos mimos, a sua exigência manteve-se, mesmo que seja na escolha e utilização de uma fotografia de banco de imagens. Temo que o Pedro Ferreira me tenha estragado para sempre e que quando eu estiver a babar-me num qualquer lar de terceira idade, vou aborrecer-me por o Programa de Actividades não ter a tipografia certa, ou ter um achaque com a utilização recorrente de degradés no menu do almoço.

Por estar estragada não percebo que as outras pessoas não queiram também deixar-se estragar pelos mimos da cultura visual. Há em Portugal muitos outros designers e directores de arte capazes de tornar o mundo mais agradável à vista, de serem o Pedro de cada director de marketing, cada product manager, cada director de comunicação, cada director de campanha dos candidatos aos mais variados cargos políticos, cada secretário-geral de cada partido político, cada presidente de câmara. É que se na comunicação comercial a mediocridade visual é regularmente entrecortada pela excelência, na comunicação política – já ninguém lhe chama propaganda, pois não? – isso nunca acontece. Nunca. Vá, talvez tenha acontecido esporadicamente no tempo dos murais revolucionários em que os artistas participavam activamente da vida política. E depois mais nada. Apenas milhares de cartazes de 8 x 3 metros literalmente plantados em todo e qualquer lugar, em frente a monumentos, a entupir a visibilidade de praças públicas, a desfear a arquitetura das cidades e vilas de Portugal, não só por que são feios, muito feios, mas também porque são grotescamente inúteis do ponto de vista da propaganda ou simplesmente da comunicação – ou a cabeça de 3 x 8 metros do Nuno Melo plantada na rotunda do Marquês de Pombal convence alguém a votar no CDS para o Parlamento Europeu?

A Comissão Nacional de Eleições acabou de publicar um decreto segundo o qual os cartazes ou outros suportes não podem incluir promessas de obra feita ou a fazer salvo em caso de grave ou urgente necessidade pública. Explicita pormenorizadamente que expressões podem ou não ser usadas, que mensagens podem ou não ser comunicadas. Mas nada diz relativamente ao facto de se poderem esburacar passeios, entaipar vistas ou amarrar postes com cartazes feios, pobres e maus, poluindo todo o espaço visual dos cidadãos. E isto parece-me, a mim que fui estragada por um excelente director de arte, um caso de grave e urgente necessidade pública. A necessidade de partilharmos o belo, a urgência de respeitar o espaço que é de todos e, acima de tudo, a responsabilidade de evoluir. A utilização do espaço público para comunicação comercial tem regras apertadas, espaços limitados e multas pesadas para quem não cumpre a lei. Já as normas para os partidos políticos parecem estar ao nível da monofolha a preto e branco colada selvaticamente nas paragens de autocarro, que anunciam a compra de carros usados. Embora, pasme-se, exista uma lei do tempo de Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro, que inclui a alínea que determina que a propaganda politica ou eleitoral deve “a) Não provocar obstrução de perspectivas panorâmicas ou afectar a estética ou o ambiente dos lugares ou da paisagem”. Afectar a estética é obviamente uma questão de critério e se o critério estético de quem decide nunca foi influenciado positivamente, é o que se vê. E na verdade quanto a critérios estéticos, fica tudo explicado quando se consulta o site da Comissão Nacional de Eleições. Senhor presidente da CNE, quer que lhe empreste o Pedro Ferreira?!

Por Judite Mota

CCO na VMLY&R

judite.mota@pt.yr.com

Artigo publicado na edição n.º 272 da revista Marketeer de Março de 2019.

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